|
Três grandes realidades sociais
Atualmente, na Amazônia Continental, estima-se uma população total de uns 23 milhões de habitantes. Historicamente essa população foi configurando-se de distintos modos:
- Antes do ano 1500 eram as populações indígenas quem ocupavam estas florestas e rios.
- De 1500 a 1850 foi o tempo dos científicos, missionários, militares e viajantes aventureiros.
- Entre 1850 e 1945 foi a época do extrativismo dos produtos florestais (fibras vegetais, piaçava, juta, cipó, borracha, etc).
- A partir da metade do século XX (1950) até nossos dias vivemos vários ciclos: do ouro e dos minérios estratégicos, das empresas de mineração (petróleo, gás, urânio, alumínio), do Pólo Industrial e da Zona Franca de Manaus, das madeireiras, dos grandes projetos agrícolas e de colonização, das empresas vinculadas à biodiversidade, à engenharia genética e à água doce, dos grandes projetos de desenvolvimento e de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA).
Todos esses processos históricos foram modificando a realidade ambiental e social da Amazônia, quase sempre de um modo muito violento e gerando situações muito dolorosas para os povos indígenas e populações tradicionais da região.
Na atualidade, podemos agrupar e caracterizar a população amazônica em três grandes realidades sociais:
Realidade Indígena:
Os povos indígenas são os moradores ancestrais e originários da floresta amazônica, com línguas e culturas milenares. Na atualidade, na Amazônia Continental, existem-resistem uns 400 povos indígenas e são faladas umas 300 línguas.
No Brasil, no ano de 1500, calcula-se que a população indígena era de uns 5 milhões. Essa enorme população foi violentamente reduzida a apenas 200 mil pessoas durante a ditadura militar (1975). O projeto militar previa acabar com os índios até o ano 2000.
Mas os povos indígenas lutaram e resistiram, organizaram-se e buscaram aliados e amigos entre os setores sociais sensíveis e solidários com sua causa. A partir da década de 1960, a igreja revisa criticamente seu serviço aos povos indígenas em toda Latino América (encontros de Barbados 1 e 2). É nesse contexto que nasce o CIMI (Conselho Indigenista Missionário, 1972) como órgão oficial da CNBB (Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), ao serviço e junto aos povos indígenas.
Com o esforço dos povos indígenas e suas organizações, com a ajuda de seus amigos e aliados o projeto diabólico dos militares dos anos de 1970 se reverteu. Hoje, no Brasil, são 240 povos indígenas e se falam 180 línguas. O total da população indígena do Brasil é de 734.131 pessoas; dessa população o 47,8% está nas aldeias e o 52,2% nas cidades. Na Amazônia os dados são: 270.211 indígenas; deles o 77,2% mora nas aldeias e o 22,8% nas cidades (IBGE 2000). Fruto também desse esforço, lutas, sofrimentos e mortes, foi conquistado aproximadamente 11% do território nacional como “terra indígena”, ainda que muitos processos de demarcação não tenham sido concluídos.
Ainda hoje se estima que existem uns 40 grupos indígenas que “evitam o contato” como o ocidente para não ser exterminados. São pequenos restos de povos que foram pressionados e reduzidos violentamente pelo avance da “civilização”. Estima-se entorno a mil pessoas.
Os desafios que hoje os povos indígenas continuam enfrentando são: demarcação, garantia e defesa da terra; militarização das áreas indígenas; invasão das terras indígenas por empresas mineradoras, madeireiras e de biodiversidade (biopirataria); a população indígena que mora nas cidades; falta de respeito a seus direitos diferenciados em educação, saúde, organização, sustentabilidade, crenças e valores culturais, etc.
Um desafio que até hoje continua sendo muito grande é derrubar a falácia de que os “povos indígenas são um empecilho para o desenvolvimento da região”. Pelo contrário, como defende Bartomeu Melia e a experiência histórica mostra: “O saber milenar dos povos indígenas é solução para muitos dos problemas atuais do ocidente”.
Realidade ribeirinha, posseiros, pequenos agricultores:
Os ribeirinhos são fruto de migrantes nordestinos e de outros Estados do Brasil, que vieram para a Amazônia ao longo dos séculos XIX e XX, por ocasião do “ciclo da borracha”, “ciclo do ouro”, “ciclo da madeira”, “projetos de colonização agrícola”, etc. Aqui ficaram e formaram família, muitas vezes, casando-se com indígenas, dando origem à “cultura cabocla”. Trabalham como posseiros, pequenos agricultores, pescadores, extrativistas das florestas, trabalhadores das ribeiras dos rios, lagos e igarapés, das várzeas e da terra firme, das estradas e ramais. Vivem organizados em pequenos povoados, em comunidades dispersas ao longo dos rios e estradas, também muitos moram em casas ou palafitas isoladas.
O ritmo das águas marca para muitos a vida: trabalham na várzea quando baixam as águas; em tempo de cheia, trabalham seus roçados no “centro” (na terra firme). A economia se baseia na pescaria, agricultura familiar, pequenos negócios e comercio, caça e extrativismo. A alimentação básica, sobre tudo na beira dos rios, lagos e igarapés é farinha e peixe.
Muitos dos migrantes chegados de fora da Amazônia têm assumido o conhecimento e as técnicas dos povos indígenas integrando-as com êxito a seus sistemas sociais adaptando-se muito bem ao ecossistema amazônico.
Hoje, o mundo ribeirinho, com o apoio da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e outras organizações, está em forte processo de organização e consolidando sua identidade própria como realidade social.
Talvez esta realidade social seja a mais desassistida da Amazônia. Por parte do governo não há respostas às necessidades do interior e por isso o êxodo ribeirinho para as cidades é grande.
Realidade urbana:
Dos 23 milhões de habitantes da Amazônia Continental, aproximadamente uns 16 milhões moram nas cidades amazônicas. Isto significa 70% da população. Só por citar algumas das grandes cidades situadas na calha central do rio Amazonas, desde sua desembocadura no oceano atlântico até suas nascentes no Peru: Belém (1,3 milhões), Obidos (50 mil), Santarém (300 mil), Itacuatiara (75 mil), Manaus (1,5 milhões), Tefé (65 mil), Tabatinga-Leticia (100 mil). E em Peru: Iquitos (400 mil hab.), Pucalpa, Tarapoto, Yurimaguas, etc.
O acelerado processo de urbanização da Amazônia tem a ver com os modelos de desenvolvimento projetados para a região (exemplo, Pólo Industriais de Manaus), assim como por causa da “exportação da miséria” do nordeste e sul brasileiro, das regiões andinas e da costa dos países amazônicos, para esta grande região considerada “vazia”, onde todos os problemas sociais podem-se “jogar”. Todas essas grandes cidades têm crescido e continuam crescendo, de modo desorganizado, sem que as políticas públicas acompanhem seu desenvolvimento de modo ordenado e digno para os seres humanos.
Na cidade de Manaus, por exemplo, vivem mais de 1,5 milhões de pessoas. Corresponde a mais de 60% da população do estado de Amazonas. Uma forte contradição do modelo de desenvolvimento é que Manaus é a capital brasileira onde a riqueza e a renda estão mais concentradas nas mãos de poucos (95% da renda estadual está concentrada na “Zona Franca”), de outro lado as periferias de Manaus, suas áreas de ocupação e/ou invasão, impressionam pela magnitude e miséria. São imensas massas de marginalizados urbanos sem perspectivas de futuro...
Manaus é uma cidade que cresce em média de 12% ao ano de forma desordenada causando um contínuo processo de invasões ou ocupações. O déficit de emprego e moradia é muito alto. A fome faz parte do cotidiano de milhares de famílias vindas das comunidades ribeirinhas, indígenas e migrantes de outros estados e de outros paises limítrofes que se instalam nas áreas de invasão das periferias da cidade ou nos igarapés que percorrem toda a cidade.
|