Amazonia (III), por Fernando Lopez sj

Amazonia, tierra de todos (VI): las amenazas, por Ines Dieppa

El Cristo de la Caida, por Jose G. Rodriguez Escudero

Impresiones sobre el foro social (I)

El velo en Francia, por Jose I. Gonzalez Faus

 

 

AMAZONÍA (III)

Fernando López sj vive en la Amazonía, trabaja en el Equipo Itinerante de la Amazonía. Es palmero.


Três grandes realidades sociais

Atualmente, na Amazônia Continental, estima-se uma população total de uns 23 milhões de habitantes. Historicamente essa população foi configurando-se de distintos modos:

  • Antes do ano 1500 eram as populações indígenas quem ocupavam estas florestas e rios.
  • De 1500 a 1850 foi o tempo dos científicos, missionários, militares e viajantes aventureiros.
  • Entre 1850 e 1945 foi a época do extrativismo dos produtos florestais (fibras vegetais, piaçava, juta, cipó, borracha, etc).
  • A partir da metade do século XX (1950) até nossos dias vivemos vários ciclos: do ouro e dos minérios estratégicos, das empresas de mineração (petróleo, gás, urânio, alumínio), do Pólo Industrial e da Zona Franca de Manaus, das madeireiras, dos grandes projetos agrícolas e de colonização, das empresas vinculadas à biodiversidade, à engenharia genética e à água doce, dos grandes projetos de desenvolvimento e de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA).

Todos esses processos históricos foram modificando a realidade ambiental e social da Amazônia, quase sempre de um modo muito violento e gerando situações muito dolorosas para os povos indígenas e populações tradicionais da região.

Na atualidade, podemos agrupar e caracterizar a população amazônica em três grandes realidades sociais:

Realidade Indígena:

Os povos indígenas são os moradores ancestrais e originários da floresta amazônica, com línguas e culturas milenares. Na atualidade, na Amazônia Continental, existem-resistem uns 400 povos indígenas e são faladas umas 300 línguas.

No Brasil, no ano de 1500, calcula-se que a população indígena era de uns 5 milhões. Essa enorme população foi violentamente reduzida a apenas 200 mil pessoas durante a ditadura militar (1975). O projeto militar previa acabar com os índios até o ano 2000.

Mas os povos indígenas lutaram e resistiram, organizaram-se e buscaram aliados e amigos entre os setores sociais sensíveis e solidários com sua causa. A partir da década de 1960, a igreja revisa criticamente seu serviço aos povos indígenas em toda Latino América (encontros de Barbados 1 e 2). É nesse contexto que nasce o CIMI (Conselho Indigenista Missionário, 1972) como órgão oficial da CNBB (Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), ao serviço e junto aos povos indígenas.

Com o esforço dos povos indígenas e suas organizações, com a ajuda de seus amigos e aliados o projeto diabólico dos militares dos anos de 1970 se reverteu. Hoje, no Brasil, são 240 povos indígenas e se falam 180 línguas. O total da população indígena do Brasil é de 734.131 pessoas; dessa população o 47,8% está nas aldeias e o 52,2% nas cidades. Na Amazônia os dados são: 270.211 indígenas; deles o 77,2% mora nas aldeias e o 22,8% nas cidades (IBGE 2000). Fruto também desse esforço, lutas, sofrimentos e mortes, foi conquistado aproximadamente 11% do território nacional como “terra indígena”, ainda que muitos processos de demarcação não tenham sido concluídos.

Ainda hoje se estima que existem uns 40 grupos indígenas que “evitam o contato” como o ocidente para não ser exterminados. São pequenos restos de povos que foram pressionados e reduzidos violentamente pelo avance da “civilização”. Estima-se entorno a mil pessoas.

Os desafios que hoje os povos indígenas continuam enfrentando são: demarcação, garantia e defesa da terra; militarização das áreas indígenas; invasão das terras indígenas por empresas mineradoras, madeireiras e de biodiversidade (biopirataria); a população indígena que mora nas cidades; falta de respeito a seus direitos diferenciados em educação, saúde, organização, sustentabilidade, crenças e valores culturais, etc.

Um desafio que até hoje continua sendo muito grande é derrubar a falácia de que os “povos indígenas são um empecilho para o desenvolvimento da região”. Pelo contrário, como defende Bartomeu Melia e a experiência histórica mostra: “O saber milenar dos povos indígenas é solução para muitos dos problemas atuais do ocidente”.

 

Realidade ribeirinha, posseiros, pequenos agricultores:

Os ribeirinhos são fruto de migrantes nordestinos e de outros Estados do Brasil, que vieram para a Amazônia ao longo dos séculos XIX e XX, por ocasião do “ciclo da borracha”, “ciclo do ouro”, “ciclo da madeira”, “projetos de colonização agrícola”, etc. Aqui ficaram e formaram família, muitas vezes, casando-se com indígenas, dando origem à “cultura cabocla”. Trabalham como posseiros, pequenos agricultores, pescadores, extrativistas das florestas, trabalhadores das ribeiras dos rios, lagos e igarapés, das várzeas e da terra firme, das estradas e ramais. Vivem organizados em pequenos povoados, em comunidades dispersas ao longo dos rios e estradas, também muitos moram em casas ou palafitas isoladas.

O ritmo das águas marca para muitos a vida: trabalham na várzea quando baixam as águas; em tempo de cheia, trabalham seus roçados no “centro” (na terra firme). A economia se baseia na pescaria, agricultura familiar, pequenos negócios e comercio, caça e extrativismo. A alimentação básica, sobre tudo na beira dos rios, lagos e igarapés é farinha e peixe.

Muitos dos migrantes chegados de fora da Amazônia têm assumido o conhecimento e as técnicas dos povos indígenas integrando-as com êxito a seus sistemas sociais adaptando-se muito bem ao ecossistema amazônico.

Hoje, o mundo ribeirinho, com o apoio da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e outras organizações, está em forte processo de organização e consolidando sua identidade própria como realidade social.

Talvez esta realidade social seja a mais desassistida da Amazônia. Por parte do governo não há respostas às necessidades do interior e por isso o êxodo ribeirinho para as cidades é grande.

 

Realidade urbana:

Dos 23 milhões de habitantes da Amazônia Continental, aproximadamente uns 16 milhões moram nas cidades amazônicas. Isto significa 70% da população. Só por citar algumas das grandes cidades situadas na calha central do rio Amazonas, desde sua desembocadura no oceano atlântico até suas nascentes no Peru: Belém (1,3 milhões), Obidos (50 mil), Santarém (300 mil), Itacuatiara (75 mil), Manaus (1,5 milhões), Tefé (65 mil), Tabatinga-Leticia (100 mil). E em Peru: Iquitos (400 mil hab.), Pucalpa, Tarapoto, Yurimaguas, etc.

O acelerado processo de urbanização da Amazônia tem a ver com os modelos de desenvolvimento projetados para a região (exemplo, Pólo Industriais de Manaus), assim como por causa da “exportação da miséria” do nordeste e sul brasileiro, das regiões andinas e da costa dos países amazônicos, para esta grande região considerada “vazia”, onde todos os problemas sociais podem-se “jogar”. Todas essas grandes cidades têm crescido e continuam crescendo, de modo desorganizado, sem que as políticas públicas acompanhem seu desenvolvimento de modo ordenado e digno para os seres humanos.

Na cidade de Manaus, por exemplo, vivem mais de 1,5 milhões de pessoas. Corresponde a mais de 60% da população do estado de Amazonas. Uma forte contradição do modelo de desenvolvimento é que Manaus é a capital brasileira onde a riqueza e a renda estão mais concentradas nas mãos de poucos (95% da renda estadual está concentrada na “Zona Franca”), de outro lado as periferias de Manaus, suas áreas de ocupação e/ou invasão, impressionam pela magnitude e miséria. São imensas massas de marginalizados urbanos sem perspectivas de futuro...

Manaus é uma cidade que cresce em média de 12% ao ano de forma desordenada causando um contínuo processo de invasões ou ocupações. O déficit de emprego e moradia é muito alto. A fome faz parte do cotidiano de milhares de famílias vindas das comunidades ribeirinhas, indígenas e migrantes de outros estados e de outros paises limítrofes que se instalam nas áreas de invasão das periferias da cidade ou nos igarapés que percorrem toda a cidade.